Matthaeum · V · III–XII

Que Bom Seria

Sobre a humanidade que desce do sermão
e entra na vida

Moisés Santos
The Sermon on the Mount
· Uma Palavra Antes ·

Este texto foi escrito porque, de alguma forma, nos distanciamos da nossa humanidade, e essa distância raramente nos incomoda o suficiente. O Sermão da Montanha é provavelmente o discurso mais citado da história do Ocidente. E talvez o menos praticado.

Não estou de fora disso. Escrevi cada linha deste texto olhando primeiro para mim. Para as vezes em que escolhi o argumento no lugar da escuta. Para as vezes em que confundi firmeza com dureza. Para as vezes em que a minha fé foi mais doutrina do que presença, mais postura do que encontro.

O que Jesus disse naquele monte não era uma lista de virtudes para admirar de longe. Era um convite pessoal e cheio de afeto, para um outro modo de ser humano. Um modo que começa por dentro, no lugar que ninguém vê, e só depois aparece nas escolhas, nas reações, no trato com quem está ao lado.

Cada página deste texto é uma afirmação que faço a mim mesmo e que, se você quiser, pode fazer a si também.

Que bom seria se eu fosse assim. — Moisés Santos
I De Paupertate Spiritus

Que bom seria se você fosse pobre de espírito.

Não pobre de ideias, não pobre de argumentos, não daquele pobre que se encolhe diante do mundo. Pobre de espírito é outra coisa: é o homem que entra num cômodo e não sente necessidade de preenchê-lo com a própria voz. É a mulher que discorda e ainda assim pergunta. É quem carrega uma convicção sem transformá-la em arma.

Há uma espécie de pessoa que, quanto mais aprende, mais acha que já sabe tudo. Que, quanto mais acumula, menos consegue receber. Que, quanto mais se enche de certezas, menos consegue surpreender-se. Esse não é o pobre de espírito.

O pobre de espírito é aquele que chega diante de qualquer coisa grande, de qualquer mistério, de qualquer outro ser humano, e sente que ainda tem muito a aprender. Que bom seria se você fosse assim. Porque é exatamente dessa pobreza que nasce a única riqueza que não se perde.

II De Lacrymis

Que bom seria se você chorasse mais.

Não por fraqueza. Justamente o contrário: o choro é o momento em que a nossa armadura cede e deixamos o mundo nos tocar de verdade. Há pessoas que passam anos sem chorar e acham que isso é força.

Mas o que acontece com uma terra que não recebe chuva? Endurece. Racha. Nada cresce nela.

O choro é o sinal de que você ainda está conectado, de que a dor do outro ainda te atravessa, de que você não se tornou impermeável à vida alheia. Chorar diante de uma injustiça é um ato político. Chorar com alguém que sofre é um ato sagrado. E se você já não consegue mais fazer nenhum dos dois, vale perguntar: o que exatamente você preservou ao secar os seus olhos?

III De Mansuetudine

Que bom seria se você fosse manso.

Cuidado: manso não é fraco, não é submisso, não é aquele que engole tudo em silêncio. Mansidão é força que escolhe a gentileza em vez da dominação. É o homem que poderia esmagar e decide construir. É a mulher que tem razão e ainda assim fala com calma, porque sabe que a verdade não precisa de violência para existir.

Vivemos num tempo que confunde brutalidade com coragem. Que acha que gritar mais alto é argumento mais sólido. Que trata a suavidade como defeito de caráter.

Mas olhe ao seu redor: quem deixou uma marca real na vida das pessoas foi quem as dominou ou quem as acolheu? A mansidão não é a ausência de força. É a decisão de usá-la com precisão, com afeto, com intenção.

IV De Iustitia

Que bom seria se você tivesse fome e sede de justiça.

Não aquela justiça seletiva que defendemos quando nos favorece. Não aquela que aplicamos nos outros e suspendemos para nós. Fome de justiça é incômodo permanente. É não conseguir dormir tranquilo sabendo que o sistema foi feito para funcionar para uns e esmagar outros.

É reconhecer que você, talvez, esteja do lado que foi favorecido, e que isso não é mérito exclusivo seu. Que bom seria se você sentisse na garganta a seca de quem não tem acesso. Se você não conseguisse comer sem lembrar de quem produz o seu alimento e quanto ganha por isso.

Se o privilégio te pesasse, não de culpa paralisante, mas de responsabilidade em movimento. Porque quem tem fome não descansa enquanto não come. E quem tem fome de justiça não deveria descansar enquanto ela ainda é privilégio de poucos.

V De Misericordia

Que bom seria se você fosse misericordioso.

Misericórdia não é pena. Pena olha de cima. Misericórdia se senta no mesmo nível. Pena mantém distância. Misericórdia entra na história do outro e fica ali por um tempo, sem pressa de resolver, sem necessidade de julgar.

Há uma espécie de crueldade disfarçada de princípio que circula nos ambientes religiosos: a que pune antes de perguntar, que condena antes de escutar, que sabe exatamente onde o outro errou sem jamais ter estado onde o outro esteve.

Que bom seria se, antes de emitir o veredicto, você perguntasse o que essa pessoa carregou durante a vida inteira. O que aconteceu com ela antes de ela fazer o que fez. Porque a misericórdia não é ingênua. Ela enxerga o erro com clareza. Só que ela também enxerga o ser humano que está por trás do erro. E decide que o ser humano vale mais do que a sentença.

VI De Puritate Cordis

Que bom seria se você fosse limpo de coração.

Não puro no sentido asséptico, blindado, sem história. Limpo de coração é quem não age de um jeito e pensa de outro. Quem não sorri na frente e fere por trás. Quem não usa a bondade como fachada nem a fé como vantagem. É aquele cuja vida interna e vida externa dizem a mesma coisa.

Que bom seria se o que você pensa sobre alguém quando está sozinho fosse compatível com o que você diz quando está na frente dele. Se o que você sente de verdade pudesse ser dito em voz alta sem vergonha. Se as suas ações não precisassem de explicação porque já são, por si mesmas, coerentes com quem você diz ser.

A limpeza de coração é rara, porque exige um trabalho que ninguém vê: o de ser honesto consigo mesmo primeiro, antes de qualquer audiência.

VII De Pace

Que bom seria se você fosse um promotor de paz.

Não o que evita conflito por covardia. Não o que cala para não se expor. O promotor de paz é quem entra no conflito com intenção diferente: não para vencer, mas para que algo melhor emerja.

Que bom seria se, em cada desacordo, você buscasse primeiro entender do que ser entendido. Se, em cada atrito, você perguntasse o que essa pessoa está protegendo, o que ela teme, de onde vem o calor que ela coloca nas palavras.

Que bom seria se você tivesse a capacidade rara de apontar, em alguém com quem você discorda profundamente, algo genuíno para reconhecer. Não por diplomacia. Por honestidade. Porque a paz real não é o silêncio depois que todo mundo desistiu de falar. É o espaço em que as diferenças podem existir sem destruir o que nos une. E isso exige de você mais do que boa vontade. Exige coragem.

VIII De Persecutione Iustitiae

Que bom seria se você apoiasse os que sofrem por defender o que é justo.

Não a justiça de facção, não a justiça de quem ganhou a última eleição, não a que serve ao grupo de quem está no poder esta semana. A justiça que equilibra. A que olha para o mais fraco e pergunta o que ele precisa. A que incomoda porque é universal: vale para o seu lado e para o lado que você não gosta.

Há pessoas que pagam um preço real por acreditar nisso. Que perdem emprego, amizade, reputação, às vezes a própria segurança, porque se recusaram a cruzar os braços diante do que estava errado.

Que bom seria se você, ao menos, não atirasse pedras nelas. Que bom seria se você entendesse que quem defende o justo não está pedindo aprovação. Está pedindo que você não colabore com a injustiça enquanto assiste.

· Finis · Et Confessio ·

E no fim, quando o tempo tiver passado e eu olhar para trás, o que quero poder dizer é simples.

Que eu errei muitas vezes, mas tentei de verdade. Que a fé que professei não ficou guardada em palavras bonitas ditas nos lugares certos para as pessoas certas. Que ela entrou nas minhas escolhas difíceis, nas minhas reações em dias ruins, no modo como tratei quem não podia me dar nada em troca.

Que ela foi alimentada não por medo do que viria depois, mas por um sentimento de profundo e às vezes inexplicável pertencimento à humanidade: a convicção de que o outro importa, de que o sofrimento alheio é real, de que nenhum de nós está aqui sozinho e por acaso.

E que essa fé, construída assim, no miúdo, no imperfeito, no cotidiano, me conectou com quem criou tudo isto.

Não porque eu fui bom o suficiente.
Mas porque tentei, com o que tinha,
ser humano de verdade.

Cada pequena escolha de escutar antes de falar,
de chorar diante do que dói no outro,
de buscar paz onde seria mais fácil vencer,
de defender o mais fraco mesmo sem audiência

cada uma dessas escolhas te devolve
um pedaço da sua humanidade.

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Moisés Santos Matthaeum V · III–XII  ·  Anno Domini MMXXVI